tem, mas acabou

tem, mas acabou

tma #28 | o buraco é mais embaixo

um paralelo com a série The Good Place para refletir sobre o lugar, o momento complicado que vivemos (para dizer o mínimo)

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lari reis
jan 30, 2026
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olá!

esta edição da tma tem spoilers de The Good Place, uma série de 53 episódios que começou em 2016 e terminou em 2020. no momento em que escrevo, segue disponível pela Netflix.

tô escrevendo direto de São Paulo, a cidade açaí (ou você ama ou você odeia). tem muita coisa por aqui que me agrada, sobretudo porque eu quase nunca preciso encarar o trânsito ou o metrô nos horários de pico.

se você nunca esteve aqui ou nunca fez o que vou propor a seguir, fica a dica: visite alguma das estações movimentadas, de preferência, a estação da luz. não somente pela história, tamanho e arquitetura, mas para ver gente. um mundarél de gente e simplesmente observar.

provavelmente não vai ser divertido, porém, pode ser algo que te aterrise, te faça firmar os pés no chão. talvez, ao final dessa leitura, você entenda melhor o porquê dessa sugestão.


🔎 a news de hoje é sobre:

  • o “lugar bom”

  • melhor e ruim

  • resistir é inútil


antes de seguir, feliz 2026. estamos de volta :)

nem sei explicar o que foi o final do ano para mim. eu tava bem, mas cansada a ponto de não conseguir responder mensagens de natal e revéllion. então, resolvi entrar em recesso e voltar com a tma só agora, na última semana de janeiro.

passei as festividades em BH, retomei a rotina de trabalho e atividades físicas, e vim para essepê. aqui, saio de caso com uma frequência maior, estou na região central e me deparo mais vezes com a realidade da vida.

a população em situação de rua cresceu 142% desde a pandemia. 60% estão na região sudeste, com mais de 100 mil na principal metrópole do país. não é que eu não veja essas pessoas em outros lugares, mas aqui a sensação é de que estão por todas as partes; a cada esquina, um novo encontro.

olho para isso e penso em The Good Place.

o mesmo acontece quando vejo a proposta de Trump para a construção de uma “riviera” de alto luxo em Gaza, lembro da criança palestina assassinada com 335 tiros ou leio que o ICE deteve uma criança de cinco anos, em situação regular, para usá-la de “isca” contra sua família.

🚨 aqui começam os spoilers.

The Good Place é sobre Eleanor Shellstrop, uma mulher que morre e acorda no "lugar bom”, um paraíso para almas virtuosas. tendo perfeita noção de como foi sua vida, ela logo percebe que foi um erro ter sido designada para esse lugar e faz o possível para esconder isso de Michael, coordenador dessa realidade, para que não seja mandada para o que seria o inferno.

acontece que ali, Eleanor e outros personagens começam a entender que, na verdade, já estão nesse inferno. o que parece ser um lugar bom é uma espécie de punição para quem não foi tão legal em vida. em suma, em The Good Place não há salvação.

garantir um lugar no céu depende de uma vida praticamente sem erros, pecados ou como-você-queira-chamar. então, basicamente ninguém consegue.

[se você for assistir à série, prepare-se para um começo irritante e resista. vai valer à pena. The Good Place é uma excelente comédia filosófica baseada em conceitos de ética e moralidade]

não é de hoje que o mundo parece estar indo de mal a pior, mas é esse contexto mais recente — que inclui um flerte com uma terceira guerra mundial — que me fez pensar com certa tranquilidade, se é que posso dizer isso, que acabou pra nós.

provavelmente já ultrapassamos o famigerado ponto de não retorno. estamos no The Good Place; um lugar que só parece bom, mas não é. tanto não é que, em boa parte, faz jus à ideia de inferno na Terra.

se estivesse vivo, Hans Rosling estaria decepcionado comigo agora.

esse médico sueco se considerava um possibilista. depois de anos de trabalho no seu campo de atuação, percebeu que as pessoas envolvidas em criar soluções para melhorar o mundo não conheciam (e seguem não conhecendo) o mundo.

capitalistas selvagens que só pensam no próprio lucro também não conhecem. e, pasmem, poderiam estar ganhando muito mais dinheiro se tivessem uma compreensão melhor da realidade.

➡️ sem pesquisar, qual você diria que é o percentual global de crianças que receberam ao menos uma dose de vacina em suas vidas?

a. 20%

b. 50%

c. 90%

não sei qual foi sua linha de raciocínio, mas quando me deparei com essa pergunta, respondi logo 20%. porque a gente sabe que existe muita gente vivendo na miséria e na pobreza. e porque a gente tem visto, infelizmente, o movimento anti-vacina crescer.

a resposta certa, porém, é 90% (na verdade, 89% dos bebês de todo o mundo receberam ao menos uma vacina contra difteria, tétano e coqueluche, segundo dados de 2024 divulgados pela OMS e UNICEF).

no livro Factfulness, Hans Rosling, seu filho Ola e sua nora Anna se propõem a nos apresentar o uso de informações como uma forma de terapia. os autores passam por dez insitintos humanos que nos fazem ter uma visão distorcida da realidade, uma visão mais pessimista.

resumindo em pouquíssimas palavras, a gente aprende o conceito de melhor e ruim. os números mostram que o mundo melhorou bastante e que segue esse movimento quase de forma contínua.

somos convidados a encarar esse fato não como um pseudo-otimismo, um apelo à ingenuidade ou coisa do tipo. o principal motivo é nosso próprio bem-estar. outro, é para termos uma compreensão verdadeira do mundo e, então, sermos mais capazes defender nossas causas pessoais e coletivas.

por isso eu disse que Hans estaria decepcionado comigo e esse discurso aparentemente derrotista de comparar nossa vivência global à The Good Place.

se quisermos não enlouquecer, acredito que precisamos:

_manter o conceito de melhor e ruim na mente toda vez que algo nos fizer perder as esperanças;

_lembrar que a gente é brasileiro e não desiste nunca (em outras palavras, entender que viver tão bem quanto for possível tem a ver com não acreditar que resistir é inútil).

resistir é útil. aliás [mais spoilers da série], é isso que Eleanor faz em The Good Place com o apoio de seus novos amigos. eventualmente, as pessoas que estão ali encontram o caminho para sair daquele inferno.

ou seja, a galera não se conformou com aquela realidade, por mais que fossem constantemente levados a pensar que não havia saída, que não havia salvação.

sinceramente? tô no auge do meu cetismo e agnosticismo. não faço ideia se vamos ou não para um lugar — seja bom ou ruim — depois de morrermos e isso nem vem ao caso.

o que me mantém sã é pensar que ainda temos uma saída em vida. ou várias saídas, começando a partir de uma jornada de evolução pessoal e passando pela conexão com outras pessoas que também estão nessa.

não é nada capaz de transformar o mundo, mas certamente válido para encontrarmos válvulas de escape que nos façam ser menos derrotistas, entreguistas. novamente, pelo nosso próprio bem-estar e melhor proveito da nossa existência.

isso? um mapa do metrô de SP; um trem (risos) que acho tão bonito que faria um quadro pra colocar na minha casa

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ps: esta edição foi escrita antes que eu tomasse conhecimento do caso do Orelha e, mais do que isso, me informasse que “desafios” de maus tratos contra animais correm soltos em plataformas como o Discord.

para quem se interessar em saber mais, deixo a entrevista com a juíza Vanessa Cavalieri que diz se impressionar com o fato de que “as pessoas ainda não entenderam o tamanho do buraco em que nós estamos metidos”.


tem pra hoje

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