tem, mas acabou

tem, mas acabou

tma #25 | eu, você e a Suzane von Richthofen

esse post aborda o aumento das vendas dos produtos da Suzane depois da série Tremembé, como nossa sociedade pensa o crime e a violência, e não traz nenhuma resposta

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lari reis
nov 14, 2025
∙ Pago

olá, você!

diz aí, você compraria uma havaianas estilizada manualmente por Suzane von Richthofen? não? o problema é o estilo do chinelo cravado de pedrarias que não te agrada ou que jamais passaria pela sua mente comprar algo de uma ex (?) criminosa?

e o que você sente sabendo que o lançamento da série Tremembé atraiu mais atenção para a lojinha artesanal da gata e aumentou suas vendas? e em relação à mensagem de “gratidão” postada por Suzane em celebração ao “boom” de vendas?

hoje, de forma especial, te recomendo passar um café.


🔎 a news de hoje é sobre:

  • o crime compensa?

  • menos armas, mais livros?

  • essa gente tem solução?


Tremembé estreou no prime video no final de outubro. por se basear em obras públicas e acessíveis a qualquer cidadão, a série não rende pagamento por direito de imagem a Suzane, Elize Matsunaga, Alexandre Nardoni ou quem quer que seja.

embora eu esteja entre as pessoas que torcem para que isso aconteça logo, o Brasil ainda não tem uma lei que proibe pessoas que comenteram crimes de lucrar com obras relacionadas ao fato e tenham seu envolvimento direito.

assim, se qualquer uma dessas personalidades decidir escrever um livro para apresentar sua versão da história, pode fazer uma grana.

apresento como condição porque já existe o entendimento jurídico de que essa possibilidade de ganho financeiro a partir da exposição midiática deve ser impedida. mas deixo os pormenores pros amigos adevogados.

agora que já tranquilizei todo mundo que estava preocupado com isso (risos), podemos seguir.

por aqui no nosso pedaço do mundo, cultura do punitivismo é bastante forte. ainda que o país tenha a 3ª maior população carcerária do mundo, 46% dos cidadãos defendem leis mais rígidas e penas maiores para combater a violência.

um ponto (entre os vários outros) é que cerca de 1/4 dessa população é formada por presos provisórios. o que isso significa? que essa galera sequer passou por um julgamento — justo e isento — como define a lei.

então, encarcerar mais e por mais tempo como?

se você me conhece, pode supor corretamente que estou fazendo essas perguntas pura e simplesmente em defesa do diálogo. não faço parte dos 46%, mas também vejo que temos problemas com a violência no país.

outro ponto é que as mais de 670 mil pessoas cumprindo pena em presídios no Brasil, em sua maioria, lida com a superlotação, má qualidade das instalações e pouca ou nenhum atendimento em saúde.

tem quem diga que esse é mais do que essa gente merece. de quem tem um celular furtado a quem tem um ente querido que foi vítima de latrocínio na situação mais banal, entendo a raiva.

já desejei e seguirei desejando as piores coisas para estupr*dores, ped*filos… acredito que existem pessoas que realmente não tem jeito e vão sempre representar perigo para os outros e para si. mas, até para essas, talvez a solução seja outra.

me deixe dar alguns passos atrás antes de seguir falando dessa turma mais barra pesada.

as más condições de funcionamento do sistema carcerário prejudicam significativamente a possibilidade de ressocialização. muita gente acredita que esse processo de reeducar um indvíduo para viver em sociedade falha porque é uma ideia de girico fada a falhar, mas não é bem assim.

a ressocialização não funciona no Brasil por problemas sistêmicos. em outras palavras, existem múltiplas causas que se conectam e impactam umas as outras — é verdadeiramente complexo.

programas ineficazes fazem parte dessa rede de problemas, mas a superlotação e as más condições dos presídios, também. em boa parte, é o incentivo e a prática do encarceramento em massa que sabota a ressocialização e faz com tanta gente dizer: eles saem é pior de lá!

imagem retirada de matéria publicada no portal g1

para a maioria dos brasileiros, o tema da dignidade para presos é impensável. mas criei esse espaço justamente para tentar fazer quem me lê pensar (ainda que seja para discordar depois).

e se somos 32% defendendo outras estratégias, existe luz no fim do túneo — ainda que, vista do lugar que estamos, essa luz pareça um único vagalume. mais educação, oportunidades e medidas sociais certamente fazem a diferença a favor da segurança.

tá em linha com o que conversamos sobre o combate ao crime organizado na edição anterior da tma e o que é ou não uma ação que realmente tem chances de fazer a diferença.

ainda pensando em quem pode — poderia? deveria? — passar por um bom programa de ressocialização depois de cumprir sua pena, existe outro grande problema: a sociedade que não aceita.

nos últimos dias, li comentários de alguns posts sobre Tremembé, Suzane e o aumento de suas vendas. os que mais chamaram a minha atenção foram justamente os que defendiam que Suzane pagou pelo crime que cometeu e está apenas aproveitando o direito de reconstruir sua vida de forma legal, honesta.

esses foram os comentários que mais causaram revolta. a conclusão de algumas pessoas, inclusive, era de que a história de Suzane prova que o crime compensa…

aí voltamos à ideia de penas maiores defendida pela maioria da população e a como isso agravaria nossa dificuldade em ressocializar quem possa ser ressocializado. ou ficamos nesse loop ou encontramos uma forma de rompê-lo.

gostaria de cada vez mais ser capaz de apresentar ideias ao abordar um problema, mas tenho minhas limitações como não-especialista na maioria dos temas que abordo.

para além do que sei, o que tento fazer é provocar o senso crítico para que a gente pense mais ou cobre mais de quem tem o conhecimento e, importante, o poder de fazer diferente. de fazer melhor.

agora, voltemos àquela turma barra pesada. vou contar um caso real da terra do Tio Sam (que poderia muito bem ser daqui e talvez seja também).

🗣️ um casal formado por um homem e uma mulher têm quatro filhos. os dois mais velhos já não moram em casa, mas os mais novos sim — são um jovem de 13 e uma menina de 9.

ambos nutrem uma relação de afeto valorizada, sobretudo, pela menina. aquela coisa de gostar de receber a validação do irmão mais velho, sabe? acontece que esse irmão comete abusos contra a irmã que ele deveria proteger.

[há todo um contexto repleto de detalhes que eu poderia trazer, mas vou me ater ao básico que avalio ser suficiente para que você entenda a história.]

a família agiu assim que soube da situação depois que a menina se abriu com a mãe. em diversos momentos, procuraram o serviço social, a polícia e até a justiça. boa parte dos seus pedidos de ajuda foram negligenciados. em uma das vezes, a polícia sugeriu que o casal tirasse a vítima de casa e não seu algoz.

por alguns intervalos de tempo, o casal conseguiu que o jovem fosse internado em instituições médicas de longa permanência porque o caso é, sim, decorrência de um transtorno de saúde mental. algo que a família começou a entender melhor com auxílio de profissionais de saúde que atenderam o rapaz ao longo dos anos.

o jovem chegou a dizer para a mãe que o momento em que se sentiu melhor, mais feliz e seguro em toda vida foi na instituição de segurança máxima, digamos assim, em que ficou por oito meses. esse nível de rigidez, mas com dignidade (boas instalações, alimentação adequada e etc.), foi a melhor realidade que ele conheceu.

contudo, como muitas outras, essas instituições têm limites de tempo e ele recebeu alta. aos 18 anos, tornou-se legalmente dono de si e, a essa altura do campeonato, cabe somente a ele decidir se quer ou não continuar seus tratamentos e adotar uma rotina mais restrita que o ajude a não agir com base em pensamentos de violência contra outros e autodestruição.

a menina está com 12 anos, faz terapia para aprender a lidar com seus traumas e tem apoio constante de uma mãe que, quando preciso, larga tudo e vai encontrar a filha na escola apenas para ajudá-la a recobrar o senso de segurança.

o jovem adulto dessa história provavelmente é um dos barra pesada — depois da irmã, outras pessoas o acusaram e a última notícia que tive era de que um novo caso havia chegado à justiça.

fato é que o buraco é muito mais embaixo para algumas pessoas que cometem crimes horrendos e, cedo ou tarde, vão compor a população carcerária. e me parece que, enquanto mundo, não temos a menor estrutura para lidar com suas demandas de atenção, prevenção ou correção.

tenho buscado mais informações a respeito, inclusive com médico conhecido que está fazendo especialização na França, onde visita uma instituição que lida com jovens como o dessa história. talvez em outro momento eu volte para contar.

ainda que eu não consiga explicar o porquê — inclusive porque sigo desejando tudo de ruim pra quem eu não consigo ter empatia — tendo a crer que a solução, por mais complexa e difícil que seja, passa mesmo pensar com mais humanidade sobre quem a gente considera desumano.

sim, no fim, a Suzane foi só um gancho pra toda essa conversa e foi um bom gancho.

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tem pra hoje

  1. pra continuar a pensar 🧠

este vídeo do Wagner Moura, trecho de sua participação no documentário do ICL, com comentário da Mariane Santana (que eu já trouxe pra cá em outra ocasião).

“numa sociedade que funciona pela desconexão, pela indiferença, o simples ato de reconhecer que aquilo não deveria ser normal, é uma ameça”.

sou fã da Mari e gosto muito da provocação que ela fez ao falar que, hoje em dia e já há algum tempo, nossa sociedade tenta calar quem ainda consegue se indignar com o que de errado acontece com o outro. o motivo? talvez uma autodefesa contra a necessidade de encarar a desigualdade brutal e, acrescento, as injustiças do sistema em que a gente vive.

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